“Uma Copa criada só para vencedores”

Foi o Estado de S. Paulo quem afirmou: somos “uma Copa criada só para vencedores”.

Em uma matéria do caderno de Esportes de hoje, a repórter Ana Paula Garrido retratou de uma forma bem bacana como foi a Copa do Mundo de Criança de Rua.

Vejam abaixo que legal que ficou! Ou pelo link http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100330/not_imp531176,0.php

Valeu pelo carinho, Ana Paula! A atenção e o espaço que você nos concedeu são essenciais para o sucesso de nossa causa!

Evento foi organizado pela primeira vez e a África do Sul recebeu garotos que passaram a infância sem casa

Ana Paula Garrido – O Estadao de S.Paulo

Eles acabaram de voltar da África do Sul, onde jogaram a Copa. Lá foram destaque entre os times adversários, sempre idolatrados por onde passavam. Não, não é uma prévia otimista para a participação da seleção brasileira na 19.ª edição da mais esperada competição de futebol do mundo. A Copa citada se refere ao primeiro torneio de Crianças de Rua, conquistado pela Índia, que ocorreu de 14 a 23 de março e teve o futebol como pretexto para reunir ex-moradores de rua, de 13 a 16 anos.
A equipe brasileira foi com 10 “craques” (7 meninos e 3 meninas), que se revezavam quanto à posição de capitão do grupo. O talento do elenco não veio necessariamente dos pés, mas da superação na trajetória de cada um. Hoje, nenhum deles mora mais nas ruas, todos estão em abrigos. Mas a difícil experiência vivida por eles até hoje vem à tona, seja em gestos de isolamento ? alguns preferem não falar e nem sair em fotos ?, ou no tempo necessário para transmitir confiança ? há quem comece tímido, mas depois pede para conversar por horas.

Por lei, eles não podem contar as barreiras enfrentadas na rua, para evitar complicações futuras. O que se sabe é que o principal motivo que os levam à rua é a violência doméstica, causada muitas vezes por alcoolismo ou uso de drogas pelos pais. Talvez por isso, os garotos valorizem tanto um simples gesto de carinho ou aceitação. “O que eu mais gostei da viagem foram as pessoas mesmo. Elas eram diferentes, houve uma recepção muito boa com a gente, que eu não esperava”, conta Thamires dos Santos Ferreira, de 15 anos.

O assédio ao grupo verde-amarelo veio logo na chegada. “Quando anunciaram o Brasil, todo mundo se levantou para aplaudir”, vibra Josilene dos Santos, a Lenynha, lembrando da entrada do grupo na escola, onde ficaram, em Durban.

Em campo, o desempenho brasileiro não foi tão bom ? terminaram em 4.º lugar. “Faltou mais dedicação”, contou Rogéria Souza de Oliveira. Porém, o objetivo não do evento não ter um “campeão” de fato, mas proporcionar a troca de experiência e, principalmente, propor soluções para a realidade que atinge crianças no mundo inteiro.

Este cenário, Rogéria, a capitã fora das quatro linhas, não teve problema para dominar. “Nas eleições, todos fazem promessas, mas ninguém fala em tirar as crianças da rua. Isso precisa mudar”, indica a mais engajada na questão ? desde 2004 participa de conferências sobre o tema. Há 7 anos mora num abrigo.

A mais alegre do time, Lenynha, conheceu alguns lugares onde moram as crianças de rua da África do Sul e se surpreendeu com o que viu. “Eles moram em árvores. Eles fazem um buraquinho e escondem as roupas lá dentro”, comentou a garota de 12 anos, ou melhor, thirteen (treze em inglês), como prefere falar, numa forma de reforçar o que aprendeu vivendo com pessoas de sete países: África do Sul, Índia, Ucrânia, Nicarágua, Filipinas, Reino Unido e Tanzânia.

Igualdades. Segundo o grupo, as condições dos moradores de rua no país-sede da Copa são piores que as do Brasil. No entanto, a trajetória, cercada de barreiras, é a mesma no mundo todo.

A questão do idioma também não foi entrave. “Não importa de onde as pessoas sejam, percebemos que todos nós somos iguais. Todos nós somos crianças que queremos brincar”, comentou Rogéria, que trouxe de lembrança as trancinhas vermelhas, feita na África do Sul.

A passagem já deixa saudades no time. A maioria do elenco brasileiro se emocionou durante toda a competição. “Foi lindo quando a Inglaterra ganhou da gente e pegou a bandeira do Brasil para comemorar”, recorda Thamires. “Eu me emocionei com o garoto africano que chorou no primeiro jogo, porque eu não pude entrar, (o time deveria ter só 9 atletas). Depois disso, eles deixaram jogar todos os dez”, conta Rogéria.

As boas lembranças das crianças podem ser retomadas em junho, mais exatamente no dia 25, quando a seleção enfrentará Portugal, pela primeira fase, no Estádio Moses Mabhida, o mesmo que os jovens conheceram e puderam pisar o gramado.

Na próxima Copa, em 2014 no Brasil, a “seleção-exemplo” não poderá jogar: todos já terão ultrapassado o limite de 16 anos. Para não ficar de fora e tentar rever os amigos estrangeiros, alguns já pensam em atuar como voluntários. No entanto, o ideal é outro. “No fundo, a gente não quer que tenha a segunda edição. Até 2014 espero que não existam mais crianças de rua no mundo. Isso é possível se as pessoas se conscientizarem”, declarou Rogéria.

O pensamento completa a frase elaborada pelo grupo, durante as conferências, feitas entre os jogos: “Para mudar o mundo comece a mudar a si mesmo, porque todos somos campeões!”

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